20/03/2007 - 09h02
Pista "errada" pode virar trunfo da patinação do Brasil no Pan
Fernanda Brambilla
Em São Paulo
Em meados de fevereiro, a patinação de velocidade recebeu uma notícia-bomba do Co-Rio (Comitê Organizador dos Jogos Pan-Americanos do Rio). A pista onde a modalidade vai competir não seguirá os padrões oficiais, não terá o mesmo piso a que os atletas estão acostumados, não terá a inclinação de 15 graus na curva como costumam ter as pistas de todas as competições.
Mas a surpresa, inicialmente ruim, pode virar um fator decisivo para o Brasil, que não tem tradição nenhuma no esporte, em sua estréia no Pan.
"Foi uma surpresa pra nós, assim como para todos os países quando ficaram sabendo", conta o coordenador-técnico Geraldo Amaral, que também é membro do Co-Rio. "Esse vai ser nosso trunfo, já que teremos tempo para nos adaptarmos à pista. Muita gente vai chegar aqui escorregando."
O dirigente tem sua teoria armada para o sucesso. "Teremos cerca de 20 dias de treino. Todos os outros países terão apenas dois. Eles têm força, técnica, têm quase tudo. Nós não tínhamos nada. Agora temos a pista", aposta.
Com a notícia, no entanto, a seleção brasileira rasgou a programação final até o Pan e refez seus planos. Até então, os atletas estavam concentrados em Sertãozinho, no interior de São Paulo, onde treinavam na única pista regulamentada do país - em granilite (um tipo de granito) e com inclinação.
O local de competição do Pan será uma continuação do velódromo, que receberá provas do ciclismo, que está sendo construído em madeira. "Não tínhamos verba para construir um patinódromo como temos em Sertãozinho, então eles (o Co-Rio) só ampliaram o velódromo. A zona de segurança das bicicletas é a nossa pista, um oval de 200 metros. Era isso ou correr em um estacionamento", brinca, em alusão à seleção brasileira, que agora treina no estacionamento do Parque do Ibirapuera, em São Paulo.
Para o técnico da seleção, o colombiano Ramiro Lacerna, no entanto, a novidade ainda é ruim. "É um material muito mais rápido do que o nosso piso em Sertãozinho, ou mesmo do que o asfalto. Mas temos que pensar que, com sorte, isso até pode nos trazer alguma vantagem."
Sem depender da sorte, a equipe planeja uma viagem à Colômbia, país com tradição no esporte, para um período de trabalhos táticos. "Lá, a patinação é como o futebol aqui no Brasil, e eles terão a chance de treinar ao lado de uns 15 campeões mundiais", afirma Ramiro.
"Essa fase será essencial, porque não adianta fazê-los dar mil voltas aqui se eles não têm com quem se comparar para melhorar o ritmo de competição", diz Ramiro, que se mantém realista. "Já avisei que não temos chance de medalha. Não se cria um campeão assim, do nada, só porque o Pan vem aí."
Em retribuição às boas-vindas no país, a Colômbia já avisou que quer vir ao Brasil participar do Campeonato Brasileiro, evento que servirá como um "pré-Pan íntimo", já que só contará com os atletas nacionais. E, agora, com os grandes favoritos ao ouro no Pan.
"Isso é só mais um sinal de que a pista realmente faz diferença. Aposto que muita gente vai cair, vai escorregar, e vai dar muita sorte para o Brasil", diz o coordenador Geraldo Amaral. "Tomara que nada fique pronto a tempo do Brasileiro."
FONTE : http://esporte.uol.com.br/pan/2007/ultnot/2007/03/20/ult4343u298.jhtm
Patinação dribla buracos, carros, pedestres e ambulantes até o Pan
Para viver seu grande momento em julho nos Jogos Pan-Americanos, a patinação de velocidade tem que desviar de carros, pedestres, ciclistas, carrinhos de sorvete, galhos de árvore, poças, buracos e até policiais, que obstruem o percurso.
Sem um local adequado para treinar, a equipe nacional se reúne no estacionamento do parque Ibirapuera, em São Paulo, e usa a imaginação para fazer de conta que o contorno por trás dos carros é um circuito oval.
Entre uma volta e outra, os patinadores também têm que atentar a pedestres que atravessam o caminho sem avisar, carros que saem e entram a todo instante em busca de vagas, ciclistas que teimam em fazer o mesmo trajeto em sentido contrário, ambulantes empurrando seus carrinhos, casais de idosos que querem caminhar devagarzinho entre os carros. Até uma excursão escolar atrapalha o treino da seleção brasileira.
Para o técnico do Brasil, o colombiano Ramiro Lacerna, as distrações já fazem parte da rotina. "É um parque público, não posso mandar ninguém sair daqui. Já pedimos com educação, já tivemos bate-bocas e já brigamos feio. Não adiantou nada", afirma o treinador. "Tentei levá-los para patinar no parque, mas os policiais vinham apitando atrás, mandando ir mais devagar para que não atropelássemos ninguém. Patinar devagar não nos interessa", completa suas queixas.
Essa parece ser a toada dos patinadores. "A gente vem aqui todo dia, e sempre tem algum problema. O asfalto é desnivelado, tem muitos gravetos, pedrinhas. Quando chove, formam umas poças enormes. Mas o pior ainda são as pessoas", desabafa Talita Arroio. "O que recompensa é quando alguém vem e pergunta por que estamos fazendo isso...aí entendem que não estamos brincando."
Os atritos com os freqüentadores diminuíram depois que os atletas passaram a usar uniformes, o que os diferenciou dos diletantes. "As pessoas passaram a nos tratar diferente. Mesmo que não saibam nada de patinação, elas reparam que não somos só um bando de loucos dando voltas. Somos loucos uniformizados do Brasil", brinca Edson de Almeida.
Dos atuais sete atletas da seleção, apenas duas duplas serão escolhidas para o Pan do Rio. O único fora do Ibirapuera, Rafael Romano mora na Argentina, onde treina por conta. Do grupo daqui, alguns são ex-praticantes do hóquei com patins (inline), que deixaram a modalidade para se dedicar à velocidade. O hóquei fazia parte do programa da última edição do Pan, em Santo Domingo-2003, mas saiu no Rio para dar lugar ao futsal, modalidade em que o Brasil tem hegemonia continental.
"Não temos nada contra jogadores de hóquei, mas somos vistos como desertores", conta Paulo Marques, de 24 anos. "A diferença é a exibição. Se numa quadra jogam 12 contra 12, na patinação você se destaca entre os 20 do pelotão", resume o atleta, que começou fazendo entregas de patins na farmácia em que trabalhava. "Peguei gosto, comecei a me destacar porque fui ficando rápido, até que decidi ficar de vez aqui."
O caçula da equipe, Douglas Conceição, de 18 anos, ainda se policia para não confundir as coisas. "Os movimentos de braço são diferentes, a gente sempre tem que ficar atento para não perder embalo", conta.
Longe de pensar em glória, Edson de Almeida se contenta com a torcida do quartel. Cabo do Exército, o atleta de 25 anos era alvo de chacotas dos colegas. "Cada foto que eles viam minha, era aquele deboche. Militar usando colant? Patinando alinhado com homens, um atrás do outro?", lembra. O pesadelo de Edson passou com o primeiro pedido de dispensa oficial do COB (Comitê Olímpico Brasileiro). "Quando viram que a coisa era séria, as brincadeiras pararam. E vieram os elogios. Ainda bem que eles são patriotas."
No feminino, a disputa é quase inexistente, já que apenas Talita Arroio e Eliete Cardoso são as únicas meninas no grupo. Ainda assim, o técnico tenta fomentar a competição. "Tudo depende do nível técnico delas. Se uma não estiver bem, levo apenas a outra. Ou nenhuma. Não é porque temos as vagas, que vou disperdiçá-las com atletas que não terão chances de bons resultados. Isso seria vergonhoso", argumenta Ramiro.
E em ano de Pan, vale tudo. Recém-formada em publicidade, Talita, de 22 anos, abdicou da perspectiva de começar uma carreira para subir nos patins. "Já tinha desistido uma vez por causa do vestibular. Passei, fiz faculdade, agora larguei tudo de novo para me preparar para o Pan", diz.
Com um impressionante currículo no hóquei, Eliete Cardoso, de 23 anos, quer nos patins a medalha que não teve chance de disputar. A atleta foi campeã paulista, brasileira, vice no Sul-Americano e terceira colocada no Mundial de hóquei sobre patins, disputado no Canadá em 2006. Mas quando foi convidada pelo técnico colombiano para fazer parte da seleção que vai disputar o Pan, não hesitou em largar a modalidade.
"Eu gosto das duas coisas, sempre pratiquei os dois esportes. Era atacante no hóquei, mas sempre ajudava na marcação, porque sempre fui rápida, o que me ajudou na transição para a velocidade", conta Eliete.
Natural de Belém do Pará, Eliete já faz planos para quando a medalha vier. "Lá em casa todo mundo já espera me ver na televisão. Imagina se eu ganhar medalha? Quero sair pra tomar um açaí lá em Belém e ser reconhecida na rua", se empolga.
FONTE : http://esporte.uol.com.br/pan/2007/ultnot/2007/03/20/ult4343u296.jhtm
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